| TRADIÇÕES
Festas
e Romarias: Na Freguesia, realizam-se festas em honra da
Padroeira, Nossa Senhora dos Milagres, em 15 de
Agosto; de São Pedro, no dia 29 de Junho; e do Divino
Espirito Santo.
Danças
e Cantares: Fazem parte da memória dos mais velhos,
os serões bem passados com as modas dedicadas à sua
bela Freguesia, de que são exemplo significativo os versos
seguintes:
“Eu
corri o mar à roda
De penedo em penedo
Encontrei o meu amor
No baixio do Lajedo.
Bela
aurora está no mato
Debaixo do arvoredo
Juntando milho torrado
P’rás meninas do Lajedo.”
Trajes
Característicos: “(...) Muito menos elegante
e atraente, o vestuário antigo tinha, sobre o moderno, a
vantagem de permitir uma perfeita distinção entre
o pobre e o rico, distinção esta hoje quase impossível
de verificar.
As raparigas do povo apresentam-se, actualmente, na Igreja e nos
passeios com o vestuário em tudo semelhante ao dos ricos.
As chinelas de salto, a meia de seda, o mantinho ou o chapéu
tornaram-se comuns a todas as classes, usando-as igualmente a filha
do lavrador, do pescador e do operário. Veste-se, nas freguezias
e aldeias, como na capital da Ilha, com o mesmo luxo e pelo mesmo
figurino. Tal, porém, não acontecia à meio
século. Cada qual vestia segundo as suas possibilidades,
mas de acordo com a sua posição social.
A mulher do povo sentia pejo em vestir-se com o mesmo luxo e pelo
mesmo figurino que a do rico, e não se sujeitava ao escárneo
dos outros, envergando um vestido em desarmonia com o seu modo de
vida.
De entre as peças de vestuário feminino usadas ainda
há 80 anos, merecem logar de destaque a chamada « saia-de-picota»
e « capote-redondo». A primeira, usada pelas mulheres
de maior pobreza, consistia numa saia rodada de pano grosso, azul-escuro
ou preto, tendo o cós listrado de vermelho. Colocavam-na
sobre ao ombros, acolchetada no pescoço, cobrindo-lhes o
corpo até ao joelho. Por debaixo dela, vestiam casaco largo
de estopa ou lã, com mangas justas nos pulsos, e uma saia
do mesmo pano ou de chita, que lhes chegava aos pés.
Completava este traje, um lenço de «panino» ou
chita, que lhes cobria a cabeça, atando-o por debaixo do
maxilar inferior.
O «capote-redondo», destinado somente às festividades
religiosas e às visitas de cerimónia compunha-se de
duas capas sobrepostas, de pano de lã, cor de pinhão,
de comprimento desiguais. Uma descia ao tornozelo, a outra, um pouco
abaixo da cintura. Era munido de um pequeno cabeção
do mesmo pano ou de veludo preto. Com este capote, usava-se, na
cabeça, o lenço branco de linho ou seda.
O xaile veio substituir a «saia-de-picota» e o «capote-redondo».
Foi usada até há uns 30 anos, pela grande maioria
da população feminina da Ilha, passando, mais tarde,
a ser o exclusivo das pessoas idosas e das viúvas. Ainda
hoje, porém, a gente moça das freguezias usa-o como
«roupa-de-trazer» (vestido ou fato de usar por semana).
A forma de trajá-lo depende do estado da portadora. As viúvas
trazem-no dobrado em triângulo e sem cadilhos, para maior
simplicidade, fazendo-o cair em ponta, ao longo das costas; as solteiras
ou casadas, dobrado, de forma a assimilhar-se a uma manta. Nas freguezias,
a primeira forma é também indicativo de luto.
O lenço de padrões e cores diversas que acompanhava
o xaile foi substituído pela mantilha, que, por sua vez,
deu logar ao «barrete-redondo», imitação
da boina espanhola e, mais tarde, ao chapéu, hoje vulgarmente
usado em toda a Ilha.
O vestuário antigo de maior luxo, para as raparigas do povo,
consistia no casaco branco com colarinho, peitilho e punhos engomados,
saia rodada de cores, com cinto de veludo preto, meia branca arrendada,
sapato de couro da terra e lenço branco de linho ou seda.
As mais abastadas traziam a chamada «saia-de-balão»,
ou simplesmente «balão», vestida sobre as outras
duas menos rodadas, tendo, por debaixo, uma calça de linho
ou algodão, do mesmo comprimento das saias, com folhos engomados.
Com esta forma de saia, usava-se uma espécie de corpete muito
ajustado ao corpo.
O complemento de todas as saias era a «patrona», grande
algibeira sobreposta, abotoada ao cós do lado direito, que
as velhas usavam à vista, isto é, pelo lado exterior
da saia, enquanto que as raparigas a traziam pelo lado de dentro.
Há pouco mais de 70 anos, foi introduzido, na indumentária
florense, o «capote-capucho» que, nem por isso, pode
ser incluído no traje popular, atendendo ao restrito numero
de pessoas que o usam, havendo mesmo freguezias da Ilha que não
possuem um único exemplar.
Consta de uma longa capa de fino pano azul-escuro ou preto, acolchetada
no pescoço, sem cabeção, servindo de gola um
alto capuz terminado em ângulo, aberto na frente e fechado
em redondo na parte posterior. Este capuz entretelado assenta sobre
os ombros, cobrindo a cabeça sem lhe tocar.
Foi sempre um artigo caro e, por isso, usado apenas por pessoas
abastadas e, só muitos anos depois de introduzido na Ilha,
passou a sê-lo por algumas pessoas do povo, que ainda hoje
o trazem. É artigo que tende a desaparecer; no entanto, é
tido como a vestimenta de maior utilidade, chegando a ser disputado
em herança. Por debaixo deste capote é usado qualquer
traje, servindo para actos religiosos, luto, etc. .
Como artigo de agasalho, o «cachené» (imitação
vocálica do francêz « cache-nez», ou seja,
cachecol) foi vulgar em toda a Ilha, sendo usado por todas as classes
e, em especial, pelas mulheres casadas ou idosas. Hoje, pode dizer-se
que desapareceu por completo, se bem que uma ou outra pessoa idosa
e doente o pode trazer, sobre o lenço de lã, nos dias
mais rigorosos do Inverno. Era feito de malha de lã, dobrado
em triângulo e trajado pela mesma forma do lenço. Faz
parte do traje domingueiro e da «roupa de trazer» que
vou falar-vos. (...)
Compunha-se, antigamente, de um casaco de estopa ou baetilha, abotoado
na frente, até ao pescoço, com pequeno cabeção
do mesmo pano e mangas compridas justas ao pulso. Descia um pouco
abaixo da cintura, cobrindo o cós de uma saia de baeta ou
de um saiote azul com larga barra vermelha. Usavam, na cabeça,
lenço ou «calafate» (lenço cobrindo toda
a cabeça e atado na nuca) e os pés nús.
O vestuário das raparigas constava de blusa e saia de baetilha,
ou vestido largo e inteiro, a que chamavam «natigão»
(imitação vocálica do inglês «night
gown», ou seja, roupão), usado somente em casa.
Para sair, adicionavam a estes trajes, o xaile, que colocavam sobre
a cabeça, em dias de chuva; as casadas ou idosas, a «saia
de picota».
Desde há anos, porém, que a moda baniu por exemplo
estes trajes, principalmente entre a gente moça, que veste
casaco ou vestido de malha de lã ou flanela, saia curta,
e traz os cabelos cortados e cabeça descoberta.
As cores preferidas na indumentária feminina variavam, como
hoje, com o estado de solteira, casada ou viúva. Estas vestiam
de preto até contrairem novas núpcias, as solteiras
de cores vivas e claras, as casadas de cores mais modernas (modestas,
escuras).
Há, na Ilha, uma Freguesia, a Fajãzinha, aonde as
raparigas dão preferência às cores escuras,
especialmente ao castanho, verde-escuro e ao preto, cores estas
usadas, em regra, pelas mulheres casadas dos outros logares.
Como objectos de adorno, as raparigas de há 40 anos traziam,
ao pescoço, um fio de carolinas ou uma estreita fita de veludo
preto, de onde pendia uma cruz. Este adereço caiu em desuso,
sendo substituído pelo colar de prata, sustentando uma pequena
cruz do mesmo metal ou uma «loca» (medalha), com o retrato
do pai ou do desposado.
O broche e o cordão de ouro foi moda que desapareceu quase
por completo, vendo-se raramente nalgumas pessoas de meia-idade.
O anel de prata, ouro ou coral constituiu o mais apreciado objecto
de luxo da mulher do povo, que o trazia não só como
adorno mas ainda como distintivo do seu estado. As solteiras traziam-no
nos dedos indicadores e médio, as casadas, no anelar da mão
esquerda.
A propósito, lembra-me uma curiosa classificação
dada aos dedos, a começar pelo mindinho, que uma boa velhota
me ensinou há muitos anos, dizendo-me ser, outrora, usada
pelas pessoas de poucas letras: «Mindinho,/ Seu Vizinho/ Pai
de Todos/ Fura-Bolos/ Mata-piolhos».
(...)
As creanças dos dois sexos traziam cabelo comprido, formando
uma ou mais tranças sobre as costas. Do vestuário
destas pouco há a dizer. Até aos 5 anos, usavam vestido
de estopa ou baetilha, largo na cintura e chegando-lhes ao joelho.
Depois dessa idade, as do sexo masculino vestiam calça comprida
de estopa ou baeta, camisa do mesmo pano ou blusa apertada na cintura.
Este traje foi usado até há 45 anos, desde quando
começaram a usar calção, abandonando-o definitivamente
no dia da sua primeira comunhão.
Um costume antigo ainda hoje em uso faz colocar no braço
esquerdo das creanças recém nascidas, até à
idade de dois anos, uma pulseira de pequenas pontas de coral, de
onde pende uma figa de azeviche ou um pedacinho de galho de veado
a servir de amuleto.
Tal como hoje, o vestuário masculino antigo dividia-se em
«fato de ver a Deus» (domingueiro) e « roupa de
trazer».
O primeiro consistia na «japona» ( nome vulgarmente
dado ao casaco ) de baetão tecido na terra, da própria
cor da lã, castanho ou preto, na «calça de alçapão»
( calça sem braguilha, abotoada aos lados), termina em boca-
de- sino e camisa de linho; a segunda, numa «froca»
(casaco abotoado até ao pescoço) de zuarte ou de estopa
e calça do mesmo pano, ou ainda camisola de baetão
na cor natural da lã, descendo até meia coxa, abrindo
somente no pescoço, e calça de estopa estreita no
tornozelo.
Há muitos anos que o alvaroz ( imitação vocálica
de «overalls»)calça larga que se veste sobre
outra, passou a fazer parte da indumentária popular, trazido
por florenses regressados da América.
O «alvovoto» (imitação do «overcoat»)
também teve a mesma procedência sem, contudo, se vulgarizar
entre o povo, que continuou a usar, como atrigo de agasalho, a camisa
de lã da terra.
De todo o traje masculino antigo, a cobertura da cabeça constituiu
a parte mais original e de maior destaque. Usavam-se o «barrete
de borla», a «carapuça de meia», o «barrete
de campanha» e o «americano».
O primeiro, segundo a tradição, foi o mais antigo
de todos. Tinha o formato de um saco cónico de lã,
azul-escuro ou preto, com a abertura circundada de branco e terminando
numa borla da mesma cor.
Ajustava à cabeça, caindo parte sobre os ombros.
A «carapuça de meia» assemelhava-se a um grande
solideo e era, em regra, usada pelos velhos. O «barrete de
campanha», de maior agasalho, era feito de pano grosso de
lã da mesma cor dos precedentes, tinha a parte superior em
forma de calote esférica, que ajustava à cabeça,
prolongando-se para os lados, em abas arredondadas, que cobriam
as orelhas, e, para traz, uma de maiores dimensões, caindo
sobre os ombros.
Mais tarde, foi usado o «barrete americano», de pano
preto e grosso de lã, com pala da mesma fazenda, entretelada,
tendo duas abas laterais que abotoavam no alto da cabeça
e por debaixo do queixo, nos dias frios. Seguiu-se-lhe o boné
de tipo inglês, hoje muito usado. Um e outro foram introduzidos
com o regresso de alguns florenses, que haviam emigrado para a América
do Norte.
De toda a cobertura da cabeça, porém, a mais usada
durante os trabalhos agrícolas, desde há mais de sessenta
anos, foi o chapéu de palha de trigo entrançada, fabricado
na Ilha e conhecido pelo nome de «abeiro». É,
hoje, muito usado, especialmente, pelas raparigas do campo no Verão,
em dias de semana.
Como disse noutra parte, o povo florense andava, em regra descalço.
Segundo o seu modo de pensar, a cobertura dos pés era considerada
um luxo escusado e dispendioso, além de ser prejudicial à
saúde e inconveniente, na travessia de grotas e ribeiras,
e no trânsito por caminhos íngremes e escorregadios.
Somente os velhos e doentes traziam os pés, com ou sem meias,
resguardados do chão por grosso couro atado no peito do pé
ou no tornozelo, a que chamavam «albarcas».
Os novos e saudáveis continuaram descalços e alguns
houve que, durante a vida, apenas se calçaram por três
vezes – no dia da primeira comunhão, no dia do embarque
para o «castelo» (serviço militar) e no do casamento.
O hábito de andar calçado, porém, adquirido
no estranjeiro, por alguns florenses, acompanhou-os na sua terra
natal. Foi assim que começou a aparecer, na gente do povo,
o uso do calçado de trabalho, na sua maior parte trazido
da América.
Limitado, de começo, àqueles a quem o hábito,
a doença ou a velhice não permitia andar descalço,
estendeu-se mais tarde a uma grande parte dos homens do campo. Hoje
é vulgar, nos trabalhos agrícolas, o uso dos «caturnos»,
fabricados na terra, com «atanado» (nome vulgarmente
dado a toda a espécie de couro grosso), tendo uma sola de
dois centímetros de espessura, protegida por cordas ou ferraduras
apropriadas, ou então, com a sola de madeira de cedro cercada
de «arco» (folha de ferro). Com esta espécie
de calçado, trazem meia de lã, ou os pés envolvidos
numa tira de pano de algodão (hábito americano) para
evitar o suor nos mesmos. A gente moça nunca fez uso destes
«caturnos», trabalhando descalça, como ainda
hoje. As mulheres doentes ou velhas traziam chinelas «d’arelo»
(ourelo) ou galochas com sola de madeira e cobertura de couro ou
pano.
Para finalizar, passo a apresentar-vos a indumentária usada
há cem anos, nos dois actos que o povo considera os mais
solenes da vida - «passar da mesa do Senhor», como chama
à primeira comunhão, e casar.
No primeiro, as creanças do sexo feminino traziam vestido
curto e simples de «petingil» (nome dado a uma qualidade
de chita) azul ou de chita clara semeada de pintas de cor diferente,
véu branco, em regra, passado de pais para filhos, caído
ao longo das costas até ao joelho e rematado no alto da cabeça
por uma grinalda de flores brancas artificiais, meia de algodão
e sapato de couro da terra. As do sexo masculino vestiam mais pobremente
ainda; casaco e calça comprida de flanela de cor, camisa
branca, sapato preto e boné ou chapéu.
Hoje, no mesmo acto, trazem fato preto de bom pano, camisa e gravata
branca, fita de seda no braço esquerdo, sapato preto e a
cabeça descoberta; enquanto que as do sexo feminino usam
vestido comprido de crepe, cassa de lã ou cetim branco, véu
de seda, grinalda, chinela branca e meia da mesma cor.
No acto de casamento, as raparigas traziam «capote-redondo»,
algumas emprestado, lenço branco na cabeça e chapéu
preto, os homens, fato de lã de qualquer cor, chapéu
ou boné e sapato.
Hoje, as primeiras trazem vestido branco de cassa ou seda, véu
branco chegando-lhes aos pés, grinalda de flor de larangeira
(artificial), chinela e meia branca; os segundos, bom fato preto
de lã, camisa branca e gravata, chapéu de feltro e
sapato da moda (no luto, trazem este mesmo fato, com camisa preta)”.
Jogos
e Brinquedos Tradicionais: De acordo com as memórias
dos mais velhos, recuperou-se o jogo do pião.
GASTRONOMIA
Pratos Típicos: São iguarias da região,
Inhame com Linguiça, Cozido de Porco, Fressura de Porco,
Cherne Cozido e Torta de Erva do Mar.
Doces
Regionais: Fazem parte da confeitaria da região,
Doce de Amora, Doce de Figo e Doce de Araçá.
ARTESANATO
Para
não esquecer a manufactura do passado, os artesãos
locais dedicam-se à execução de mantas e de
rendas.
A olaria de Lajedo, aqui desenvolvida pelos primeiros colonos, gozou
de grande prestígio, em todo o Arquipélago. Infelizmente,
a actividade decaiu e nem a tentativa efectuada, em início
do século XX, com a vinda de alguns oleiros da ilha Graciosa,
conseguiu reimplantar esta arte na região.
O Lajedo detém, em funcionamento, os últimos teares
da Ilha, que são o testemunho vivo daquela que foi uma das
maiores indústrias das Flores, durante os séculos
XVIII e XIX.
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